Radicada em Tóquio há dois anos, onde fundou sua marca Kami No Michi (“Caminho do Sagrado”) para criar coleções de joias-amuletos e experiências com o xintoísmo, a mineira Ana Pessoa entrega três dicas do que fazer em Tóquio.
“Você finalmente vai concretizar a tão sonhada viagem para o Japão, já fez o roteiro, já sabe tudo o que ver e comprar… certo? Mais ou menos. São endereços que não aparecem nas revistas, não são mencionados pelas agências de viagem e nem mesmo aquela amiga descolada, que conhece todos os inferninhos e quebradas, ouviu falar. Esta é uma mini-lista para um toquiota raiz”, explica Ana.
1 – Jazz, babe!

De acordo com algumas estimativas, o Japão tem a maior proporção de fãs de jazz do mundo. O jazz japonês (日本のジャズ, Nihon no jazu), também chamado de Japazz, é o jazz tocado por músicos japoneses ou que possui conexão com o Japão e sua cultura.
Então, dê um Google e procure um Jazz kissa (ジャズ喫茶), às vezes transliterado como jazu kissa. Esses lugares incríveis e escondidos são cafés especializados em tocar e apreciar gravações de jazz. Exclusivos do Japão, os jazz kissa são espaços onde a música é apreciada de forma dedicada e concentrada, e não apenas como som de fundo.
Um típico jazz kissa conta com um sistema estéreo de alta qualidade, uma grande coleção de discos, iluminação baixa e serve café e bebidas alcoólicas. Café bem passado, música de qualidade – e você ainda buscando redes falidas com café aguado? Nem pensar!
Um dos mais famosos jazz kissa é o DUG, fundado em 1967.
📍 B1, 3-15-2 Shinjuku, Shinjuku-ku
🔗 DUG no Yelp
2 – Um endereço de música, literatura e gastronomia – tudo em um só lugar

Esta é a história de um bar-café aberto em 1974, com o singelo nome de Peter Cat, em Kokubunji. Em 1977, o Peter Cat se mudou para Sendagaya (minha quebrada!) e foi ali que um certo japonês chamado Haruki Murakami (村上 春樹) teve uma revelação durante um jogo do Yakult Swallows no Estádio Jingu. Inspirado, escreveu Hear the Wind Sing e Pinball, 1973 na mesa da cozinha do seu bar.
Falando a estudantes, anos atrás, Murakami explicou:
“Minha ideia era que estava tudo bem não ser apreciado por todos os clientes: se três em cada dez pessoas gostassem do meu bar e uma delas voltasse, isso era o suficiente, e o bar era empiricamente viável. É o mesmo com um romance: se três em cada dez pessoas gostassem e uma delas o relesse, tudo bem. É basicamente assim que eu penso. É muito mais fácil quando você pensa dessa forma. Eu posso fazer o que quiser, quando quiser.”
Quando perguntado se voltaria a ser proprietário de um bar, respondeu:
“Quando me aposentar da escrita, gostaria de abrir um clube de jazz em Aoyama (bairro das grandes maisons japonesas e do maravilhoso Museu Nezu). Caso aconteça, usarei um paletó branco, como Humphrey Bogart em Casablanca (será que a Comme des Garçons vende essas coisas?). Eu me sentaria no bar, beberia um Laphroaig e diria ao pianista: ‘Eu disse para você não tocar essa música, Sam’.”
Hoje, onde ficava o Peter Cat, há um restaurante italiano chamado Wine Bistro Amphora. A especialidade da casa é cordeiro vindo diretamente de fazendas em Hokkaido. A comida é excelente, os vinhos são ótimos, e o balcão tem um toque do passado.
Uma placa discreta sinaliza:
“Este é o antigo local do café de jazz do romancista Sr. Haruki Murakami, Peter Cat, desde 1977.”
Pouca gente conhece essa preciosidade!
📍 Wine Bistro Amphora, 1-7-12-2F Sendagaya, Shibuya-ku, Tokyo, 151-0051
🔗 Wine Bistro Amphora
3 – A última dica é um souvenir fofo!

No Japão, presentear amigos e familiares com um omiyage (お土産) é uma tradição essencial. E um dos souvenirs mais incríveis, nipo-icônicos e perfeitos para os tempos de crise global do ovo é… um ovo que canta na panela!
Afinal, o ovo não está caríssimo no mundo todo? Nos Estados Unidos, o preço subiu cerca de 59% em um ano, segundo dados do BLS, recuperados do Federal Reserve Bank. No Brasil, o preço no atacado registrou uma alta de mais de 40%, de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea – Esalq/USP).
Pois a melhor compra da sua viagem é um Rilakkuma Boiled Egg Timer (Korilakkuma Design). O Rilakkuma é um personagem fictício criado por Aki Kondo e produzido pela empresa japonesa San-X. Ele é retratado como um ursinho de pelúcia antropomorfizado que vive com seus amigos ursos Korilakkuma e Chairoikoguma, além do pássaro Kiiroitori.
Essa engenhoca fofa vai direto para a panela com os ovos e toca três músicas diferentes – uma para cada ponto de cozimento. Minha favorita? Ovos moles anunciados por Killing Me Softly, hit imortalizado por Roberta Flack (1973) e Fugees (1996).
🔗 Rilakkuma Boiled Egg Timer – Amazon Japão
💰 Preço médio: ¥880 (~R$ 34)
Agora sim, pronto para viver uma Tóquio diferente?