A SP-Arte se consolidou como um dos principais espaços de articulação entre arte, design e pensamento contemporâneo na América Latina. De 2 a 6 de abril, o evento chega à sua 21ª edição com mais de 200 expositores, expansão física, novos prêmios voltados à inovação e à sustentabilidade, e uma agenda ampliada de conversas com nomes nacionais e internacionais — sinal claro de sua maturidade e ambição institucional.
A edição de 2025 marca um salto estratégico no setor de design, que agora reúne 81 estúdios (dez a mais que no ano passado), incluindo a estreia de ícones como o Sergio Rodrigues Atelier, em celebração ao centenário do designer, e o estúdio Attom, comandado por Carlos e Diego Motta. A curadoria da mostra “Inteligência Material”, patrocinada pela Arauco, propõe um olhar sobre os processos criativos a partir da matéria-prima, tema que atravessa debates contemporâneos sobre sustentabilidade, ética e autoria.
A introdução de dois prêmios — o Arauco SP-Arte de Inovação e Sustentabilidade e o Prêmio Artefacto SP-Arte Melhor Design — reforça a renovação de discursos e o estímulo a jovens criadores com atuação global. A criação do Palco SP-Arte, no terceiro andar do pavilhão, amplia a vocação reflexiva do evento com uma programação voltada a colecionadores, curadores, artistas e pesquisadores, enquanto a Arena Iguatemi mantém conversas com nomes consagrados das artes visuais.
Na confluência entre tradição e vanguarda, a SP-Arte segue como termômetro de tendências, mas também como um espaço de elaboração simbólica sobre os caminhos da produção artística brasileira e sua interlocução com o mundo. Uma vitrine, sim, mas, cada vez mais, também um fórum.
Conversei com Fernanda Feitosa, idealizadora e diretora da SP-Arte, que revelou os bastidores desta edição, as apostas curatoriais, as transformações do mercado e o que esperar da principal feira de arte e design do país em 2025.
A SP–Arte completa 21 anos em 2025. O que mudou no evento e no mercado de arte brasileira desde a primeira edição?
Vinte e um anos é uma vida, e chegar a essa marca com o reconhecimento que temos é um privilégio, resultado de um trabalho intenso! O mercado e o mundo mudaram muito nessas duas décadas. Nosso compromisso, energia e visão de levar arte para mais pessoas e renovar o mercado continuam os mesmos desde 2005. Mas as ferramentas com as quais trabalhamos evoluíram e ampliaram nosso alcance.
Hoje, temos uma comunicação muito mais ágil e assertiva com nosso público, seja por meio das redes sociais — onde contamos com mais de 260 mil seguidores —, seja por meio de nossa comunicação com 70 mil assinantes em nossas newsletters. Criamos uma comunidade e mantemos uma interação contínua com ela ao longo do ano.
As feiras de arte espalhadas pelo mundo, que em 2005 não chegavam a 50, hoje ultrapassam 250, distribuídas por todos os continentes. As relações globalizadas também chegaram ao mercado de arte, tornando a competição pela atenção do público colecionador e comprador ainda mais acirrada. O público cresceu, rejuvenesceu e está muito mais exigente e informado do que há 20 anos.
O Brasil tem hoje um mercado de arte mais maduro? Quais foram os avanços e desafios mais marcantes nesse período?
Sem dúvida, o mercado de arte no Brasil está mais maduro do que há 20 anos. Temos uma rede de museus privados e públicos consolidada, com bons acervos e programação de qualidade, especialmente em São Paulo. Veja a expansão do MASP e sua programação de exposições, reconhecida mundialmente, assim como a ampliação da Pinacoteca do Estado. Além disso, temos galerias inseridas no circuito internacional e artistas de excelência com reconhecimento global.
A Bienal de São Paulo, que acontece desde a década de 1950, é uma das mais antigas e respeitadas do mundo. Entre os avanços, citaria a própria SP-Arte, que, ao longo dessas duas décadas, ajudou a profissionalizar o mercado, trouxe mais transparência e diversidade, ampliou o público e trouxe para São Paulo galerias do mundo inteiro.
A isenção tributária do ICMS, que vigorou de 2012 a 2023, foi fundamental para internacionalizar o mercado e fortalecer a cena local. Infelizmente, sua suspensão pelo atual governo representa uma perda irreparável para o Estado, que deixa de ocupar uma posição de protagonismo no mercado internacional de arte.
O evento é um termômetro para o setor. Quais são as tendências mais fortes que você vê no cenário artístico brasileiro para 2025?
As tendências desta nova década apontam para uma maior diversidade cultural e representatividade. Há um reconhecimento crescente de práticas antes vistas como artesanato, como arte têxtil e cerâmica. Também percebemos uma preocupação crescente com o meio ambiente e a sustentabilidade em todas as áreas criativas.
Nos últimos anos, temos visto um movimento de jovens colecionadores entrando no mercado. Como a SP-Arte tem se conectado com essa nova geração?
A SP-Arte busca se renovar constantemente, e falar com o público jovem é essencial. Estamos cercados de pessoas que pensam o futuro e as novas dinâmicas sociais. Renovar os expositores com galerias emergentes, investir em uma linguagem acessível e promover conversas entre artistas jovens e consagrados são algumas das estratégias para estreitar esse diálogo. Permanecer conectado com a temperatura do tempo é nosso maior desafio — e também nosso maior trunfo.
Sustentabilidade e responsabilidade social estão cada vez mais em pauta. Como a SP–Arte e o mercado de arte estão se adaptando a essa realidade?
O mercado internacional de arte ainda se adapta lentamente a essa realidade. Transporte de obras, embalagens e logística não são práticas sustentáveis a curto ou longo prazo. Na SP-Arte, temos buscado soluções para reduzir o impacto ambiental: reutilizamos 100% de nossas paredes por mais de quatro edições, reaproveitamos placas de sinalização e utilizamos iluminação 100% LED para reduzir o consumo de energia e calor.
Quais são as grandes apostas da curadoria para esta edição? Alguma exposição ou artista que o público não pode perder?
Com mais de 100 galerias de arte e 80 de design, há muito para ser visto. Destaco as galerias de estados como Maranhão, Pernambuco, Goiás e Ceará, que trazem produções especiais com novas estéticas e visões culturais.
Pode citar alguns dos artistas que o público encontrará na SP-Arte?
Teremos obras inéditas de Mira Schendel (Galeria Gomide), Tunga (Galeria AD) e Leda Catunda (Galeria Fortes D’Aloia & Gabriel). Além disso, artistas contemporâneos como Rodolpho Parigi (Galeria Nara Roesler), Anna Maria Maiolino (Galeria Luisa Strina), Jorge Guinle (Simões de Assis), Lucas Arruda e Sonia Gomes (Mendes Wood DM), Beatriz Milhazes e Adriana Varejão, que estão com exposições no exterior.
Se você pudesse definir a edição deste ano em uma palavra, qual seria?
IMPERDÍVEL.