Abril é o mês dedicado à conscientização sobre o autismo, e um estudo recente revela uma preocupação crescente com as deficiências vitamínicas causadas pela seletividade alimentar em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Embora essas crianças possam parecer saudáveis, a limitação de alimentos pode resultar em sérios prejuízos para a saúde, o que exige, portanto, uma revisão dos exames de rotina para essa população.

Seletividade alimentar: A restrição alimentar em crianças com TEA

A seletividade alimentar é uma condição comum em crianças com TEA, caracterizada pela aversão a certos alimentos, o que restringe severamente a variedade da dieta. Essas crianças podem evitar grupos inteiros de alimentos, como vegetais, frutas e frutos do mar, e isso está intimamente relacionado com comportamentos alimentares restritivos. Segundo a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez, “a ingestão inadequada de nutrientes essenciais pode levar a deficiências vitamínicas, com consequências graves para o desenvolvimento cerebral, sistema imunológico e crescimento.”

Além disso, o estudo mais recente, publicado no periódico Nutrients, analisou 44 casos de crianças com TEA e descobriu que deficiências de vitaminas A, B, D, ferro e cálcio são as mais frequentes. A pesquisa mostrou que, mesmo com um Índice de Massa Corporal (IMC) normal em metade dos casos, muitos desses indivíduos ainda apresentavam múltiplas deficiências nutricionais. Cerca de 70% dos casos envolviam duas ou mais deficiências simultâneas, evidenciando, assim, a interação entre diferentes nutrientes.

O impacto da deficiência de micronutrientes e suas consequências

O estudo também revelou que a deficiência de cálcio e vitamina D é especialmente preocupante. As crianças com essas deficiências frequentemente evitam laticínios, fundamentais para a ingestão de vitamina D. Como resultado, muitas apresentaram distúrbios ósseos como raquitismo e osteopenia. A Dra. Garcez aponta que “cinco crianças do estudo foram diagnosticadas com raquitismo, três com osteopenia e duas necessitaram de intervenção ortopédica devido à falta de cálcio e vitamina D.”

Por outro lado, a deficiência de vitamina A, importante para a saúde ocular e imunológica, foi identificada em 20 das crianças analisadas. Fontes alimentares comuns desse nutriente, como vegetais folhosos, ovos e peixes, estavam ausentes das dietas dessas crianças. Em alguns casos, a deficiência levou a danos irreversíveis, com duas crianças apresentando cegueira permanente. Dessa forma, é fundamental uma atenção especial a esses nutrientes.

A deficiência de ferro e suas consequências para o crescimento

A falta de ferro também é um problema significativo para crianças com TEA, com 8 casos documentados de deficiência desse mineral. Em alguns casos, a deficiência de ferro foi acompanhada de deficiência de vitamina C, essencial para a absorção do ferro. No entanto, apenas uma criança desenvolveu anemia devido à carência de ferro, o que destaca a importância de uma dieta equilibrada e a necessidade de uma suplementação adequada quando necessário.

Estratégias alimentares para corrigir as deficiências nutricionais

A Dra. Garcez enfatiza a importância de uma triagem nutricional preventiva para identificar deficiências e intervir com estratégias alimentares e suplementares. “A introdução gradual de novos alimentos, com exposição repetida, pode ser eficaz. Além disso, testar receitas que mudam a textura do alimento, como sorvete de batata doce ou panquecas com espinafre, pode ser uma alternativa para facilitar a aceitação de alimentos saudáveis,” sugere. Quando necessário, a suplementação individualizada pode ser utilizada para corrigir as deficiências.

Portanto, a conscientização sobre a seletividade alimentar e suas implicações nutricionais é fundamental para o bem-estar das crianças com TEA. A identificação precoce e o planejamento de estratégias alimentares adequadas podem fazer uma grande diferença na saúde geral dessas crianças, promovendo, assim, um desenvolvimento mais saudável e equilibrado.

Fonte: Dra. Marcella Garcez: Médica nutróloga, Mestre em Ciências da Saúde pela PUCPR, Diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), e docente do Curso Nacional de Nutrologia da ABRAN. Instagram: @dra.marcellagarcez

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